18.5.10_Por Uma Liturgia Mistagógica. PDF Imprimir E-mail
Escrito por D. Jerônimo Pereira, OSB   
Quanto a nós, não nos podemos calar sobre o que vimos e ouvimos. Atos 4,20
 
Por uma Homilia mistagógica

    A homilia1 como pregação, anuncio da Boa Notícia nasceu fora do ambiente litúrgico. Nasceu a partir do comando de Jesus: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" (Marcos 16:15).  Os apóstolos sabiam que este anúncio era a apresentação de uma pessoa: Jesus, o Verbo de Deus feito carne: "O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra da Vida - vida esta que se manifestou, que nós vimos e testemunhamos, vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós -, isso que vimos e ouvimos, nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo" . Eles acreditaram e professaram que aquele "sopro criador" , prometido a Abraão e aos seus descendentes "pela boca dos santos profetas dos tempos antigos"  se encarnou em Jesus de Nazaré. Neste primeiro momento a "homilia" é essencialmente querigmática. O anúncio conduz à experiência com o  Ressuscitado e forma a comunidade que se torna comunidade celebrativa, e dentro desta a homilia adquire a forma de catequética  / iniciadora. A Igreja fundada pela Palavra gera o texto  que se torna a principal fonte de pregação . Ao longo da história a homilia assume diversas formas, adaptando-se ao espaço e ao pensamento de todos os tempos. Não é fácil definir qual o caminho a seguir uma homilia. Uma das possibilidades é o da Mistagogia.  É imprescindível que um crente saia da missa dominical "conhecendo melhor a Sagrada Escritura (efeito esegético da homilia [...]), o rito celebrado (efeito ritual), a doutrina cristã (efeito doutrinal), a "catequese mistagogica" (efeito "catequético"), a pedagogia cristã (efeito sempre mistagogico), os atos que o cristão executará ou não (efeito moral), uma direção para a vida (efeito santificante)" . Para esse fim a homilia é o espaço propício. O liturgista italiano Tommaso Federici diz que a homilia é sempre "Santa e Mistagógica" . Santa pelo seu conteúdo, ou seja: A Palavra de Deus, como atestam os Santos Padres  e Mistagógica pelo seu método: a "magnifica monotonia"  que se torna caminho mistagógico.
    Uma homilia capaz de introduzir o crente no mistério celebrado deve ter certos elementos estruturais dos quais não se pode abrir mão: a) Uma Doxologia Inicial que indica a preciosidade daquele rito e coloca a homilia dentro da dinâmica ritual celebrativa ; b) nomeação, anúncio e exaltação das Pessoas divinas, porque a Trindade é "o verdadeiro Objeto da celebração, de toda celebração" ; c) o referimento às pessoas, ao tempo e ao lugar. O Pão da Palavra e o Pão Eucaristizado são distribuídos a nós, Esposa do Cordeiro, Igreja santa, família de Deus, nação santa, povo sacerdotal, congregados pelo batismo ; aqui, neste lugar, como Igreja local onde está presente toda a Igreja Una e Santa , porque "territorialidade da Igreja é sempre teológica e salvífica" ; hoje, porque Deus é sempre hoje!; d) a proclamação do Mistério divino comunicado nas leituras daquela celebração cujo centro é o Evangelho em perfeita consonância com os Profetas e Patriarcas (AT) e atualizado na vida da Igreja através dos Apóstolos (NT), tudo sob a luz magnica do Ressuscitado, sendo essa verdade o centro de toda e qualquer homilia. A Igreja deve neste momento obter a consciência que é Cristo quem se anuncia a si mesmo ; e) convite à "Ceia do Senhor". Não se deve faltar um convite expresso, claro e convincente para a participação consciente e jubilosa à mesa do Banquete que faz a comunhão e forma a Igreja ; f) a situação concreta da comunidade, ou seja como a comunidade reunida em torno ao Ressuscitado pode viver a proposta evangélica de Jesus Cristo nas dimensões pessoal, social, politica, econômica e comunitária (eclesial); g)a finalidade de toda liturgia: A "Glória de Deus e a santificação do homem" ; h) a "linguística celebrativa". É de suma importância chamar a atenção para a linguagem própria do universo celebrativo: "Os diversos ministérios presentes na ação ritual, a Palavra, os 'sinais' dos Mistérios divinos, os cânticos, os gestos, o lugar, o momento, os outros 'sinais' concretos, como os ícones, o Altar, o ambão,  o batistério, as luzes, o incenso, os outros elementos naturais, a cruz, o cálice, e assim por diante [...]. Tudo isso forma uma 'linguística', um modo de exprimir-se, o modo de exprimir-se celebrando, o maravilhoso 'Jogo' gratuito que é a liturgia da Igreja"  ; i) uma Doxologia Conclusiva como resposta àquele DOM gratuito comunicado a nós em Cristo Jesus.

    "Adoremos também nós Àquele que os próprios arcanjos adoram, sirvamos Àquele que os próprios anjos servem, Aquele que é bendito, glorioso, excelso e digno de louvor pelos eternos.  E todas as criaturas digam: Amém!".