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Escrito por D. Bento Souza, OSB   
XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM   
 
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        A Liturgia de hoje nos põe frente a uma situação tão antiga e tão nova ao mesmo tempo. Vivemos o reflexo da atitude do primeiro homem, Adão. O pecado de Adão continua fazendo parte da nossa vida e desejamos ocupar o lugar de Deus em muitas situações e não nos damos conta de que Deus é diferente de tudo o que podemos imaginar.
           O instinto da auto-afirmação, raiz do egoísmo e do mal, está presente no coração de cada homem. Quando Jesus conta esta parábola de um banquete e da maneira que os convidados estavam procurando os primeiros lugares, Ele deseja mostrar justamente o caminho contrário, que já havia ensinado e que seus discípulos ainda não tinham compreendido.

           O desejo de Jesus é que compreendamos a necessidade de sermos como crianças e assim, pequenos nos deixemos engrandecer por Ele mesmo. Nele podemos ser grandes. Vivendo como Ele viveu vamos ter condições de testemunhar a sua obediência ao Pai, ocupando o nosso lugar sem desejar o lugar do nosso próximo.

           O humilde espera somente em Deus e jamais é decepcionado na sua esperança. É o que nós cantamos no dia da nossa consagração monástica. Não seremos confundidos na nossa esperança se de fato esperarmos no Senhor. A riqueza, a vanglória, a soberba são como degraus que em lugar de nos tornar maiores, mais poderosos, nos lançam num abismo de insatisfação, num vazio sempre maior e num desejo desenfreado de ser reconhecido no primeiro lugar.

           O inimigo nos quer envolver em sua trama fazendo-nos acreditar que somos mais do que realmente podemos ser. Em Jesus, ao contrário o caminho é outro. Jesus é rico e quer nos tornar ricos da sua graça mediante a sua pobreza, a humilhação e a humildade de coração. O ter, o poder e o aparecer são meios que tornam possíveis o caminho de Jesus para nos conduzir ao Pai.

           O homem é chamado a unir-se a Jesus num matrimônio espiritual e real, encontrando a cada dia a possibilidade de ser um só coração e uma só alma Nele para o Pai. Jesus se apresenta como aquele que está no nosso meio para servir e não ser servido. É Rei, mas vive como servo; é Deus, mas está entre os seus como o menor de todos os homens.

           O lugar desejado por Adão, ou seja, o primeiro lugar ficou vazio. Jesus Cristo veio para ocupar este lugar, não como primeiro, mas como último. Não se apresentou como Deus todo poderoso, mas como um servo pobre e humilde. Somente livre do orgulho e de qualquer presunção seremos capazes de compreender o que é ser pequeno e onde é o nosso lugar neste banquete que a cada dia somos convidados a participar. Celebrar a Eucaristia não é somente um encontro dominical, mas um contínuo desejo de estar na presença do Senhor, fazendo-O presente na vida de todos onde quer que nos encontremos. Eucaristia é ação de graças, é reconhecimento de que nada somos sem a presença viva de Jesus em nós.

           O termo vergonha que Jesus fala para aquele que deverá deixar o primeiro lugar é a vergonha daquele que não O reconheceu no último lugar. É novamente a vergonha de Adão que ao desejar o lugar de Deus se dá conta de que está nu.

A humildade aqui é aquela do Magnificat; é a mesma da manjedoura onde foi deitado o Senhor; é ainda aquela de Deus carregando a Cruz pesada pelos nossos pecados. É a mesma que Jesus viveu, ou seja, Ele iniciou sua estadia no mundo entre os animais e terminou entre malfeitores.

           Tudo isso não nos impede de vivermos os talentos que Deus nos deu. Nada nos poderá impedir de servir e de amar como Jesus. Desejar ser como Deus é um desejo justo para todo aquele que crê, mas para isso é preciso antes de qualquer coisa, saber como Deus é.

           O homem se trona semelhante ao Deus que ele conhece somente encontrando-O no seu lugar. A possibilidade deste encontro é reconhecer a veracidade de Deus na sua humildade como Filho. A sua glória não é vazia, mergulhada no egoísmo, mas aquela que é plena de um verdadeiro amor que se esvazia e se esvazia de si para acolher o outro.

           Aquele que escolhe o último lugar é chamado de amigo. Nesta amizade que seremos colocados no nosso lugar, onde Deus deseja que estejamos, pois o verdadeiro amigo se antecipa para preparar o lugar para quem ele ama. O amigo é aquele que conhece e reconhece o lugar onde o outro está e o deseja sempre mais à frente, mesmo tendo que estar um pouco mais distante ou recebendo menos do que aquele que ele realmente ama.

           Quem não procura a glória que o mundo oferece é glorificado por Deus, o qual glorifica o humilde, porque é glorificado por ele. Deus ama o humilde e o torna pleno do seu esplendor, porque se reconhece no seu próprio rosto, que é seu Filho amado. Ele é humilde, pobre, pequeno, porque é amor: esta é sua grandeza, a sua glória e o seu poder.

           Deus ama o homem como ele é e o torna grande e reconhecido na sua glória, porque o ama como criatura, como obra de suas mãos.

           Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado. O Filho de Deus desceu do alto, esvaziou-se para ser como Adão, se humilhou em obediência ao Pai e aos irmãos até a morte na Cruz. Por isso foi elevado e manifestado ao mundo como Deus e Senhor.

           Todos nós somos chamados a fazer esta experiência de amor com o Pai em Jesus Cristo. Somos um reflexo do rosto de Cristo, como Cristo é para nós um reflexo do rosto do Pai.

           Temos um exemplo que poderá nos ajudar a concluir esta reflexão de hoje. Se dermos um saco de milho aos porcos, o milho será rapidamente devorado e pisado; se dermos um saco de milho para alguém que cultiva a térrea, este milho será semeado e germinará produzindo frutos abundantes e se torna vida. Como o agricultor entende o mistério da semente que é lançada na terra e germina assim o humilde compreende o mistério de Deus.

           Humilhar quem se eleva e se coloca acima dos outros é obra de Deus, que deseja elevar os humildes. Ao fim de tudo, quando nosso Senhor retornar, todos nós seremos por Ele exaltados e elevados, pois Ele se tornou pequeno para resgatar nossa pequenez; fez-se pecado para salvar o pecador; tornou-se miséria para transformar na sua misericórdia a nossa humanidade, fazendo-nos participar da sua divindade.

           Como em Maria, a verdadeira Arca da Aliança, Ele faz a sua morada nos humildes, para os quais Ele volta sempre o seu olhar de amor e de vida nova.